A sobrecarga do cuidador
- jsmurari9
- 2 de fev.
- 5 min de leitura
Quando o cuidar adoece: da exaustão dos profissionais de saúde à dos filhos que cuidam de seus pais
A fadiga por compaixão tem sido cada vez mais observada entre profissionais de saúde e pessoas que exercem funções de cuidado, especialmente em contextos prolongados de sofrimento, adoecimento e perda. Embora frequentemente associada ao campo profissional, essa experiência também atravessa cuidadores familiares, revelando um esgotamento que não se limita ao corpo físico, mas alcança a esfera emocional e espiritual da existência.
À luz da psicologia analítica e da psicossomática, a fadiga por compaixão pode ser compreendida não apenas como um quadro de exaustão, mas como uma linguagem do inconsciente. O sintoma surge quando a consciência se torna unilateral, excessivamente identificada com determinados papéis, e perde contato com as necessidades profundas da alma.
No cuidado, especialmente aquele sustentado por ideais de abnegação, altruísmo e sacrifício, a persona do cuidador tende a se inflar. A persona, conceito central da psicologia analítica, refere-se à máscara social necessária para a adaptação ao mundo. Contudo, quando há uma identificação rígida com essa máscara, o indivíduo corre o risco de afastar-se de aspectos essenciais de sua totalidade psíquica. Vem então um cansaço que não se resolve com descanso físico, pois tem raízes profundas.
O que é fadiga por compaixão?
A fadiga por compaixão descreve um estado de esgotamento emocional decorrente da exposição contínua ao sofrimento alheio com a responsabilidade de cuidado. Diferentemente do estresse pontual, ela se desenvolve ao longo do tempo, quando a empatia é solicitada de forma intensa e constante, sem que haja espaço suficiente para elaboração psíquica. Os sintomas mais frequentes incluem exaustão, irritabilidade, sensação de vazio, perda de sentido no cuidado, alterações do sono e, em alguns casos, distanciamento emocional. Essa exaustão leva muitos profissionais de saúde à desistência da profissão ou à procura de estratégias de distancimento. Esse afastamento pode não indicar falta de amor ou de vocação, mas uma tentativa da psique de se proteger.
E o Bounout?
Embora Burnout e Fadiga por Compaixão sejam frequentemente confundidos, tratam-se de experiências distintas. O Burnout está ligado, em geral, ao esgotamento decorrente de condições externas crônicas, como excesso de demandas, pressão por desempenho e falta de reconhecimento, manifestando-se como cansaço, cinismo e sensação de ineficácia. Já a fadiga por compaixão, também chamada de sofrimento do cuidador, nasce da exposição prolongada ao sofrimento de outra pessoa, especialmente quando há vínculo afetivo e/ou comprometimento emocional profundo com a persona de cuidador. Nesse caso, o esgotamento não se dá apenas pela sobrecarga de tarefas, mas pelo desgaste emocional de sustentar empatia contínua, luto antecipatório e responsabilidade relacional. Enquanto o burnout tende a afastar o sujeito do trabalho ou da função, a fadiga por compaixão muitas vezes surge justamente porque o cuidador não consegue se afastar, mesmo quando já ultrapassou seus próprios limites.
O sintoma como linguagem do inconsciente
A psicossomática, em diálogo com a psicologia analítica, compreende corpo e psique como expressões de uma mesma realidade. Nessa perspectiva, o sintoma não é visto como um erro ou falha do organismo, mas como uma tentativa de autorregulação da psique. Quando conteúdos inconscientes não encontram vias de expressão, eles podem manifestar-se por meio do corpo. Carl Gustav Jung afirma que corpo e psique formam uma unidade funcional e que a separação entre ambos é apenas um recurso didático. Assim, o adoecimento pode ser entendido como uma mensagem que busca restabelecer o equilíbrio entre ego e Self. Na fadiga por compaixão, essa mensagem costuma emergir quando o cuidado ao outro ocorre à custa do abandono de si mesmo. O sintoma psicossomático, portanto, não deve ser silenciado apressadamente. Ele pede escuta, simbolização e elaboração. Ignorá-lo ou combatê-lo exclusivamente por meio de estratégias de desempenho pode aprofundar o adoecimento e intensificar o distanciamento da vida psíquica.
A persona do cuidador e seus limites
A psicologia analítica utiliza o conceito de persona para descrever a face que apresentamos ao mundo a fim de nos adaptarmos às exigências sociais. No cuidado, essa persona costuma assumir contornos de abnegação, força e disponibilidade constante. O problema surge quando o indivíduo se identifica excessivamente com esse papel, perdendo contato com suas próprias necessidades. O colapso da persona do cuidador, embora doloroso, pode ser compreendido como um sinal de que algo essencial precisa ser revisto. Não se trata de fracasso, mas de limite humano.
O colapso da persona e o chamado à individuação
Na psicologia analítica, o colapso da persona não é compreendido como fracasso, mas como uma possibilidade de ampliação da consciência. Quando a persona deixa de sustentar a vida psíquica, abre-se espaço para o encontro com a sombra, com a vulnerabilidade e com limites humanos até então negados. A fadiga por compaixão pode, assim, representar um ponto de virada no processo de individuação. Jung define individuação como o processo de tornar-se si-mesmo, isto é, de realizar a totalidade psíquica. Esse caminho exige o abandono de identificações rígidas e a escuta das demandas do Self. Nesse sentido, o adoecimento pode ser compreendido como um chamado teleológico, orientado para a transformação. A psicoterapia de base junguiana oferece um espaço privilegiado para essa escuta, ao acolher o sintoma como linguagem simbólica e favorecer a integração de aspectos dissociados da personalidade.
Quando filhos cuidam de pais doentes: o amor também cansa
Cuidar de pais doentes é uma experiência atravessada por afetos intensos. Amor, gratidão, medo, responsabilidade e culpa costumam coexistir no cotidiano do filho cuidador. Muitas vezes, esse cuidado se instala de forma silenciosa, ocupando pouco a pouco o espaço da própria vida.
É comum que filhos cuidadores relatem exaustão física, irritabilidade, tristeza, sensação de aprisionamento e até um certo endurecimento emocional. Esses sentimentos, no entanto, costumam vir acompanhados de culpa: “Não era para eu me sentir assim”.
Mas o sofrimento do cuidador não é sinal de falha moral ou afetiva. Ele tem nome e lugar na psicologia.

Do ponto de vista clínico, fala-se em sobrecarga do cuidador para descrever o conjunto de impactos emocionais, físicos e psíquicos vividos por quem assume o cuidado prolongado de um familiar doente. Essa sobrecarga inclui a perda de tempo pessoal, o isolamento, o luto antecipatório e a sensação de não haver escolha.
Em muitos casos, essa vivência se aproxima do que chamamos de fadiga por compaixão: um esgotamento da capacidade de sustentar empatia contínua diante do sofrimento de alguém amado. O cuidador não deixa de amar, mas chega ao limite de suas reservas psíquicas.
Um olhar simbólico
Sob uma perspectiva simbólica, o adoecimento de pais confronta o filho com uma inversão profunda de papéis e com a fragilidade das figuras que antes representavam amparo e autoridade. Sustentar essa transição sem espaço de elaboração pode gerar sintomas emocionais e psicossomáticos.
Adoecer, nesse contexto, não significa fraqueza. Pode ser a forma encontrada pela psique para pedir limites, apoio e reconhecimento da própria humanidade.
Cuidar sem se perder
Cuidar de pais doentes exige mais do que disponibilidade prática. Exige suporte emocional, possibilidade de fala, divisão de responsabilidades e, muitas vezes, acompanhamento psicológico. Cuidar sem se perder é um aprendizado difícil, mas necessário.
Reconhecer o próprio cansaço não diminui o amor. Ao contrário: pode ser o primeiro passo para um cuidado mais verdadeiro, consigo e com o outro.
A psicoterapia oferece um espaço privilegiado para transformar o sintoma em linguagem simbólica, favorecendo escolhas mais alinhadas à vida psíquica e à saúde emocional.
Sobre a autora
Josiane Sant’Ana Murari é psicóloga e arteterapeuta, com abordagem em psicologia analítica. Atua com psicossomática, clínica simbólica e processos de individuação, atendendo individualmente e em grupos terapêuticos.
Referências
ALMADA, Roberto. O cansaço dos bons. São Paulo: Cidade Nova, 2013.
CODO, Wanderlei; LAGO, Kennyston. Fadiga por compaixão: o sofrimento dos profissionais de saúde. Petrópolis: Vozes, 2010.
JUNG, Carl Gustav. O eu e o inconsciente. Obras Completas, v. 7/2. Petrópolis: Vozes, 2015.
JUNG, Carl Gustav. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Obras Completas, v. 9/1. Petrópolis: Vozes, 2000.
KAST, Verena. Crises da vida são chances de vida. São Paulo: Ideias e Letras, 2004.
MORSCHITZKY, Hans. Quando a alma fala através do corpo. Petrópolis: Vozes, 2013.
ZIMMERMANN, Elizabeth. Psicossomática: teoria e clínica. São Paulo: Summus, 2011.
FIGLEY, Charles R. Compassion fatigue: coping with secondary traumatic stress disorder in those who treat the traumatized. New York: Brunner/Mazel, 1995
MASLACH, Christina; LEITER, Michael P. The truth about burnout. San Francisco: Jossey-Bass, 1997



Comentários