A Alquimia do brincar e o resgate da natureza essencial na busca da inteireza
- jsmurari9
- 9 de abr.
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Por Josiane Sant'Ana Murari
Para a pessoa que atravessa o “meio da vida”, ou a chamada “passagem do meio”, a existência muitas vezes assume a forma de uma roupa elegantemente cortada, mas que aperta.
Passamos décadas ajustando nossa postura aos papeis de profissional, mãe, filha. A vida funciona. As respostas estão prontas. A rotina se sustenta.
E, ainda assim, algo fermenta em silêncio.
Com o tempo, a seriedade deixa de ser apenas uma qualidade e passa a pesar. Não se trata de responsabilidade ou compromisso com a realidade, mas de uma forma de seriedade que já não organiza, mas apenas endurece. A vida ganha eficiência, mas perde variação. Torna-se correta por fora e, pouco a pouco, empobrecida por dentro.
O que raramente se nomeia é que, nesse processo, algo essencial foi sendo abandonado: a capacidade de brincar.
O brincar como função psíquica
Ao falar em brincar, é comum associá-lo à infância ou à despreocupação. Essa é uma associação limitada.
O brincar, em sua dimensão mais profunda, não é uma atividade, mas uma forma de funcionamento psíquico. É a capacidade de estar em relação com a experiência sem reduzi-la imediatamente a utilidade, desempenho ou resultado.
É nesse estado que a vida pode ser vivida e não apenas executada.
Como afirma Donald Woods Winnicott:
“É o brincar, e talvez, apenas no brincar, que a criança ou o adulto fruem sua liberdade de criação. [...] É através da apercepção criativa, mais do que qualquer outra coisa, que o indivíduo sente que a vida é digna de ser vivida.” Donald Woods Winnicott
Quando essa capacidade se reduz, a vida pode continuar funcionando perfeitamente e, ainda assim, deixar de ser sentida.
O fechamento do espaço interno
Winnicott descreve o chamado “espaço potencial”, uma área intermediária de experiência que não pertence inteiramente ao nosso mundo interno, nem inteiramente ao mundo externo. É nesse espaço que situamos a experiência cultural, as artes e o viver criativo.
Quando tudo precisa ter função e utilidade imediata, esse espaço se estreita.
A experiência se torna direta demais, concreta demais e, paradoxalmente, superficial.
Em muitas mulheres, especialmente aquelas que sustentam vínculos de cuidado e responsabilidade por anos, esse fechamento pode aparecer como um cansaço silencioso. Às vezes como vazio. Às vezes como irritação ou desconexão. Nem sempre como um problema evidente, mas como uma perda de cor.
O retorno começa pelo gesto
Quando alguém se permite “perder tempo” desenhando ou experimentando sem finalidade prática, o corpo cria uma abertura e a psique volta a se mover. Algo se desloca e a imagem que surge não é apenas expressão, mas um acontecimento psíquico que reorganiza o que estava fixo.
O retorno ao brincar pode não acontecer como decisão racional. Pode surgir quando alguém pega um lápis e começa a rabiscar sem saber o que está fazendo. Ou quando permanece alguns minutos com as mãos em uma massa, apenas sentindo a textura. Ou ainda quando se permite experimentar algo novo sem finalidade definida.
Esses gestos, aparentemente simples, criam uma abertura. E é nessa abertura que algo se desloca.
O que estava fixo começa a se mover.
O que estava silencioso começa a encontrar forma. Não por esforço, mas por contato.
“O brincar, em sua dimensão mais profunda, não é uma atividade, é uma forma de funcionamento psíquico. É a capacidade de estar em relação com a experiência sem reduzi-la imediatamente à utilidade, desempenho ou resultado.” Donald Winnicott (1975, p. 65)
A imaginação como função viva
A cultura frequentemente nos ensina que amadurecer é abandonar a imaginação. No entanto, Carl Jung desloca esse eixo e afirma que a criatividade não nasce do controle, mas de uma dimensão anterior a ele.
Ele distingue o “pensamento dirigido” (lógico e cansativo) do “pensamento de fantasia” (espontâneo e que não exige esforço). Longe de ser um resíduo infantil, a fantasia é uma função viva e uma inteligência da psique.
“A fantasia, longe de ser um resíduo infantil, é uma função viva. Na infância, ela se manifesta com espontaneidade. [...] Esse movimento não é um erro a ser corrigido, é uma inteligência da vida psíquica.” Carl Gustav Jung (2011, p. 36)
Na infância, essa capacidade se manifesta naturalmente. Na vida adulta, ela tende a ser relegada em nome da eficiência. A psique não deixa de produzir imagens, mas elas deixam de ser escutadas.
E aquilo que não encontra expressão não desaparece. Apenas se fixa.
O rio que corre abaixo do rio
Clarissa Pinkola Estés descreve a criatividade como o “Rio Abajo Rio”, uma correnteza que flui por baixo da vida cotidiana, alimentando a vitalidade. Essa visão dialoga com o conceito de libido de Jung, a energia psíquica total.
Quando deixamos de brincar, essa corrente não seca, mas fica obstruída.
“A capacidade criadora da mulher é seu trunfo mais valioso, pois ela é generosa com o mundo e nutre a mulher internamente em todos os níveis [...] A criatividade emana de algo que surge, cresce, toma impulso, se avoluma e se derrama para dentro de nós” Clarissa Pinkola Estés (1994, p. 223)
Quando paramos de brincar, essa energia é represada e poluída por complexos negativos que dizem ser “tarde demais”, “isso não é importante”, “não tenho tempo”. Esses pensamentos funcionam como sedimentos que poluem o fluxo do rio.
O retorno ao brincar é, nesse sentido, um trabalho de desobstrução. Não para produzir algo extraordinário, mas para permitir que a vida volte a circular, revitalizando o que estava seco.
Brincar como processo de transformação
Na maturidade, a busca da inteireza exige o que Jung chamou de uma “viagem noturna pelo mar”: um mergulho nas profundidades do inconsciente para que algo possa ser renovado.
Brincar, nesse sentido, é um rito de individuação. É um gesto que permite que o símbolo atue.
“O símbolo funciona como um transformador, conduzindo a libido de uma forma inferior para uma forma superior de existência. [...] O que estava silencioso encontra forma. O que estava repetitivo começa a se transformar. Não por esforço, mas por contato.” Carl Gustav Jung (2013, p. 114)
Recuperar o brincar exige coragem para ser “amorfa” e espontânea. Em fases em que tudo já foi organizado, surge a necessidade de voltar a um espaço interno que é vivo, exigindo tempo sem finalidade e presença sem controle.
Reabrindo o espaço: a floresta portátil
Não é preciso mudar a vida inteira para que algo comece a se transformar.
Você pode começar criando a sua “floresta portátil”
Pratique a solidão voluntária para ouvir a voz do Self acima do barulho do mundo. Reserve algum tempo do seu dia sem estímulo, sem tela, sem tarefa, apenas para estar;
Valorize o gesto sem propósito. O brincar impede que a seriedade se torne estéril, devolvendo movimentos e sentido à vida. Desenhar, escrever, modelar, experimentar também são o brincar, quando realizados sem expectativas;
Identifique os poluentes, as vozes internas que interrompem o movimento e, aos poucos, afaste-as.
O brincar devolve movimento à vida.
Uma vida que está viva
Há uma diferença sutil e decisiva entre uma vida que apenas funciona perfeitamente e uma vida que está viva. O brincar pertence à segunda.
Ele é a condição para que a alma respire. Na maturidade, o verdadeiro trabalho não é fazer mais, mas permitir novamente o jogo, o inesperado e o não-sabido.
Ao resgatar o brincar, reconectamo-nos com uma dimensão mais profunda da psique, que não se esgota na adaptação, mas se orienta pela transformação.
Nesse processo, algo essencial retorna:
A sensação de que a vida, de fato, vale a pena ser vivida.
Deixamos de ser sobreviventes e nos tornarmos pessoas que vicejam.
Sobre a autora
Josiane Sant’Ana Murari é psicóloga e arteterapeuta, com abordagem em psicologia analítica. Atua com psicossomática, clínica simbólica e processos de individuação, atendendo individualmente e em grupos terapêuticos.
Referências
ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos. Rio de Janeiro: Rocco, 1994
JUNG, Carl Gustav. O desenvolvimento da Personalidade. Petrópolis: Vozes, 2014 (Obra Completa Vol. 17)
JUNG, Carl Gustav. Símbolos da transformação. Petrópolis: Vozes, 2011 (Obra Completa Vol. 5)
JUNG, Carl Gustav. O símbolo da transformação na missa. Petrópolis: Vozes, 2013 (Obra Completa Vol. 11/3)
WINNICOTT, Donald Woods. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.



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