NOLT e a segunda metade da vida: uma leitura à luz da psicologia analítica
- jsmurari9
- 26 de jan.
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Atualizado: 27 de jan.
Por Josiane Sant'Ana Murari
Palavras-chave: NOLT, New Older Living Trend, segunda metade da vida, psicologia analítica, crise da meia-idade.
Introdução
Vivemos um tempo em que o aumento da longevidade impõe uma pergunta inevitável, que é como viveremos esse novo tempo que nos é dado. É nesse contexto que surge o termo NOLT — New Older Living Trend, expressão utilizada para designar novas formas de viver a maturidade e o envelhecimento, marcadas por maior autonomia, participação ativa e desejo de sentido. Quando observado à luz da psicologia analítica, o NOLT pode ser compreendido como uma tendência social ou cultural, mas que expressa, de modo contemporâneo, uma tarefa psíquica antiga, própria da segunda metade da vida.
O que é o NOLT (New Older Living Trend)
O NOLT refere-se a um movimento crescente de pessoas que, ao entrar na maturidade, recusam um lugar passivo ou exclusivamente marcado por perdas. Em vez disso, buscam formas mais conscientes, criativas e autorais de viver essa etapa da vida, reorganizando trabalho, vínculos, interesses, corpo e tempo. Essa nova maneira de viver não diz respeito a permanecer jovem, mas a reposicionar-se diante da própria história, do corpo que envelhece e das possibilidades ainda existentes.
A meia-idade como ponto de inflexão psíquico
Na psicologia analítica, a passagem do meio da vida diz de um momento de metanoia, uma virada psíquica necessária, em que os valores que orientaram a primeira metade da vida deixam de oferecer sentido suficiente. É nesse ponto que muitas pessoas experimentam vazio, inquietação, insatisfação ou sensação de perda de direção. Do ponto de vista simbólico, não se trata de um erro de percurso, mas de um chamado ao reposicionamento. O NOLT aparece justamente após esse colapso de sentido, tanto social quanto individual, como tentativa de resposta à perguntas, tais como: Como viver de uma nova forma, sendo realmente quem me tornei? Para onde serão os meus próximos passos?
Persona, ego e autoria da vida
Grande parte do sofrimento na meia-idade está ligado à dificuldade de abandonar identificações antigas, tais como papéis sociais, expectativas externas, imagens idealizadas de si mesmo. Jung descreve esse movimento como a necessidade de uma progressiva desidentificação da persona ou de algumas personas importantes até ali, e que já não cabem mais. O movimento NOLT não precisa ser performático. Não se trata de parecer jovem, produtivo ou ativo a qualquer custo, mas pode ser um momento quando o ego começa a se reorganizar em torno de valores mais internos, menos adaptativos e mais coerentes com o Self. Nesse sentido, viver na fase madura passa a exigir autoria, novidade de vida e não repetição ou imitação.
Tempo cronológico e tempo psíquico
Um dos aspectos mais importantes do movimento NOLT, se olhado à luz da psicologia analítica, é o chamado à transformação da relação com o tempo. A segunda metade da vida não pode ser vivida sob a mesma lógica da primeira.
Não deve ser uma negação do envelhecimento. O tempo cronológico continua avançando, mas o tempo psíquico pede aprofundamento, integração e simbolização da experiência vivida. Essa mudança exige escuta, pausa e elaboração. E não aceleração.
Arteterapia e simbolização do envelhecimento
Nem todas as experiências desse período podem ser elaboradas apenas pela palavra. A arteterapia oferece um espaço privilegiado para que conteúdos inconscientes encontrem forma, imagem e matéria. Ao trabalhar com recursos expressivos, como desenho, pintura ou argila, em terapia, torna-se possível integrar perdas, transformações, transições e novos sentidos, de maneira menos defensiva e mais criativa. A arteterapia não propõe explicações rápidas, mas favorece a escuta simbólica do que emerge nesse tempo da vida.
Considerações finais
O NOLT, visto pela psicologia analítica, não é um modismo, mas um sinal de que a longevidade nos convoca a uma tarefa profunda: aprender a viver de outro modo. A qualidade da segunda metade da vida dependerá menos da tentativa de prolongar a juventude e mais da capacidade de assumir a própria jornada com consciência, responsabilidade, sentido e significado.
Referências bibliográficas
JUNG, Carl Gustav. A prática da psicoterapia. Obras Completas, v. 16/1. Petrópolis: Vozes.
JUNG, Carl Gustav. Memórias, sonhos e reflexões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
HOLLIS, James. A passagem do meio: da miséria ao significado na meia-idade. São Paulo: Paulus.
KAST, Verena. Crises da vida são chances de vida: crie pontos de virada. São Paulo: Cultrix.
UNITED NATIONS. World Population Ageing Report. New York: United Nations, 2019.
ILC-BR (International Longevity Centre Brazil). Longevidade e novos estilos de vida: bases para o conceito de NOLT.



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