Quando a imagem ganha forma no encontro terapêutico
O que faz da Arteterapia uma terapia?
Por Josiane Sant'Ana Murari
Talvez você já tenha vivido isso: uma sensação que chega antes de qualquer palavra. Uma imagem que te acompanha sem se explicar. Um gesto que a mão faz sozinha, antes que a mente entenda por quê.
Há experiências que reconhecemos primeiro como sensação, gesto, cor, imagem, sonho e, só depois, se depois houver, como palavra. Às vezes sabemos que alguma coisa em nós se movimenta, mas ainda não sabemos dizer o quê. Em outras, temos palavras para contar o que aconteceu, mas elas parecem insuficientes para expressar a experiência.
Algumas pessoas, que entram pela primeira vez em meu consultório/ateliê, olham com curiosidade para as miniaturas, tintas, lápis, papéis, argila e outros materiais, que dividem espaço com livros e poltronas, e perguntam:

— Você atende crianças?
Costumo responder:
— Atendo a criança que existe dentro do adulto.
Geralmente rimos. Mas a pergunta revela algo interessante sobre a maneira como aprendemos a pensar o processo criativo. Desenhar, pintar, modelar, “brincar” com formas e materiais parecem atividades naturalmente pertencentes à infância. À medida que crescemos, espera-se que a palavra, sobretudo, ocupe um lugar cada vez mais privilegiado na maneira de comunicar o que pensamos, sentimos e vivemos.
Mas a psique nunca deixou de falar por imagens. É nesse território que a Arteterapia pode abrir outras possibilidades de expressão.
Nem toda atividade que faz bem é Arteterapia
Talvez uma das dificuldades para compreender a Arteterapia esteja no uso amplo que essa palavra adquiriu.
É relativamente comum encontrarmos livros de colorir para adultos apresentados como Arteterapia. Tricô, crochê, pintura, bordado e outras atividades manuais também recebem, algumas vezes, essa denominação.
Isso não significa que essas experiências não possam produzir efeitos importantes no bem-estar. Uma atividade manual pode favorecer concentração, prazer, descanso, criatividade, convivência e oferecer momentos importantes de contato consigo mesmo.
A experiência artística também pode ser profundamente mobilizadora fora de um ambiente de terapia. A história de muitos artistas nos mostra o quanto a criação pode participar da sustentação da vida psíquica, mesmo fora de qualquer contexto terapêutico.
Mas uma atividade produzir bem-estar não faz dela, por si só, Arteterapia.
Na Arteterapia, a experiência criativa acontece dentro de uma relação terapêutica e de um enquadre profissional. É nesse contexto que materiais, imagens e processos criativos passam a participar de um percurso terapêutico.
No Brasil, vivemos hoje um momento singular dessa história. Experiências envolvendo arte e expressão no contexto psiquiátrico já eram desenvolvidas no país na década de 1920, com o trabalho pioneiro de Osório César. Somente em 17 de junho de 2026, quase um século depois, foi sancionada a Lei nº 15.435, que dispõe sobre o exercício da profissão de arteterapeuta.
O reconhecimento profissional é recente. A prática, não. E é talvez por isso que a palavra Arteterapia, circulando livre por tanto tempo sem essa moldura legal, passou a designar, no uso cotidiano, experiências tão diferentes entre si.
Talvez por isso valha refazer uma pergunta aparentemente simples:
Afinal, o que faz da Arteterapia uma terapia?
Não se trata de produzir uma obra
Em um processo de Arteterapia, não estamos procurando descobrir se alguém sabe desenhar. Tampouco esperamos produzir algo bonito, harmonioso ou tecnicamente bem realizado. Aliás, não saber desenhar é irrelevante.
A escolha de um material, a aproximação ou recusa diante dele, a maneira de tocar a argila, a intensidade de um traço, a necessidade de apagar, cobrir, rasgar, recomeçar ou simplesmente permanecer algum tempo olhando para uma folha em branco podem fazer parte da experiência.
O produto importa, mas não está sozinho. Importa também o processo.
E importa, principalmente, a pessoa na vivência daquela experiência.
Talvez esteja aí uma das diferenças fundamentais entre oferecer uma atividade artística e trabalhar com as expressões criativas do inconsciente. Na Arteterapia, os materiais participam do processo terapêutico. Não são apenas instrumentos para produzir uma imagem: sua textura, resistência, fluidez, tamanho e tantas outras características participam da experiência de quem cria e orientam a maneira como são oferecidos pelo terapeuta.
Nise da Silveira encontrou em um dos clientes da Casa das Palmeiras uma expressão muito bonita para falar dessa experiência: “emoção de lidar”. A expressão surgiu do contato com os materiais e foi adotada por Nise justamente por evocar a emoção que pode nascer desse encontro.
Quando alguma coisa encontra uma forma
Algumas imagens nos chegam espontaneamente. Outras encontram, no processo criativo, uma possibilidade de ganhar forma.
A Psicologia Analítica nos oferece uma maneira de nos aproximarmos dessas imagens sem reduzi-las ao que já sabemos.
Para Jung, um símbolo não é simplesmente um sinal cujo significado já conhecemos. O símbolo aponta para algo complexo que ainda não foi apreendido pela consciência. A imagem não precisa apenas ilustrar algo que a pessoa já sabe sobre si. Ela pode aproximá-la daquilo que ainda não consegue compreender.
Aquilo que ainda não conseguimos dizer pode encontrar uma forma, uma cor, uma figura, uma disposição no espaço. E, quando ganha forma, pode começar a ser reconhecido pela consciência.
No Brasil, poucas experiências clínicas levaram tão a sério a linguagem das imagens quanto o trabalho desenvolvido pela Dra. Nise da Silveira.
É importante fazer aqui uma distinção: Nise não denominava seu trabalho como Arteterapia e tinha reservas em relação ao termo.
Nos ateliês que desenvolveu, Nise recusava propostas baseadas simplesmente na reprodução de modelos ou na execução orientada de atividades. Interessava-lhe a possibilidade de livre expressão e aquilo que as imagens poderiam revelar dos processos psíquicos de quem as produzia.
Para ela, a imagem não precisava adquirir valor apenas depois de ser traduzida em palavras. Dar forma a experiências internas era, por si, significativo.
Mas levar uma imagem a sério traz consigo muita responsabilidade.
Uma imagem não é um código a ser decifrado
Há um episódio particularmente significativo na trajetória de Nise. Ao conversar com Jung sobre sua dificuldade para compreender algumas imagens produzidas por seus pacientes, ouviu dele uma pergunta: havia estudado mitologia?
Nise respondeu que não.
Jung chamou sua atenção para a importância desse estudo, pois algumas das imagens que encontrava ultrapassavam a história pessoal imediata e encontravam paralelos em mitos e imagens produzidos pela humanidade.
A partir daí, Nise passou a estudar mitologia e a buscar paralelos também na história da arte, das religiões e em outros campos da cultura, aproximando-se do método de amplificação desenvolvido por Jung.
Mas há uma diferença fundamental entre conhecer a linguagem simbólica e acreditar possuir a chave de uma imagem.
Conhecer mitos não transforma o terapeuta em alguém capaz de olhar uma figura e anunciar:
— Isso significa aquilo.
Do mesmo modo, uma determinada cor não possui necessariamente o mesmo significado para todas as pessoas. Uma casa, uma árvore, uma serpente, uma porta ou qualquer outra imagem não pode ser retirada da história de quem a produziu e submetida a uma espécie de dicionário simbólico ou busca na internet.
O conhecimento amplia o olhar. Não substitui a pessoa em relação com a imagem que produziu.
Uma imagem nunca está sozinha no encontro terapêutico
Há alguém que a produziu. Há uma história. Um momento particular da vida. Sentimentos, lembranças, associações, silêncios.
E há uma relação acontecendo naquele espaço terapêutico.
Por isso, trabalhar com imagens exige mais do que conhecer técnicas expressivas ou estudar símbolos. Exige presença junto a quem as produz.
Talvez seja justamente aqui que outra dimensão do trabalho de Nise da Silveira possa nos acompanhar. Ao falar das pinturas produzidas no ateliê, Nise faz uma observação muito simples e, ao mesmo tempo, decisiva: ela não as examinava sentada em seu gabinete. “Eu os via pintar.” (SILVEIRA, 2015, p. 20). Via também suas faces, seus gestos, o movimento de suas mãos. A imagem não estava separada da pessoa nem da experiência de produzi-la.
Isso torna particularmente problemática uma prática que se tornou mais fácil em nosso tempo: retirar uma imagem de seu contexto e pedir que alguém ou algum recurso tecnológico a “analise”.
Analisar uma imagem isoladamente pode produzir uma interpretação aparentemente sofisticada. Podemos reconhecer motivos mitológicos, fazer associações culturais, identificar elementos formais e levantar inúmeras hipóteses.
Mas continuaremos sem saber algo essencial:
Quem é a pessoa que produziu aquela imagem e o que acontece com ela durante o processo criativo e diante daquilo que criou?
Sem essa presença, corremos o risco de encontrar na imagem muito mais daquele que a interpreta do que daquele que a produziu.
Uma criança no ateliê
Volto então à pergunta que escuto no consultório:
— Você atende crianças?
Minha resposta continua sendo:
— Atendo a criança que existe dentro do adulto.
Não porque a Arteterapia pretenda fazer o adulto regredir à infância. Tampouco porque desenhar, pintar ou modelar sejam atividades infantis.
Pode ser justamente o contrário.
Ao longo da vida vamos aprendendo a privilegiar algumas maneiras de conhecer e comunicar a experiência, abandonando outras. A imaginação, o brincar, o gesto, a criação e a possibilidade de experimentar sem conhecer previamente o resultado vão perdendo espaço.
Os materiais presentes no ateliê talvez causem estranhamento porque nos lembram de linguagens que um dia utilizamos com naturalidade e depois esquecemos.
Retomá-las na vida adulta não significa deixar de lado a palavra ou o pensamento.
Na Arteterapia, palavra e imagem não precisam disputar lugar. Há momentos de falar. Há momentos de criar por meio de materiais. Há momentos em que aquilo que surgiu diante de nós pede palavras. Outras vezes, pede silêncio. E há ainda aqueles em que talvez seja necessário permanecer um pouco mais diante da imagem, ou com a imagem.
Afinal, nem tudo o que acontece em nós chega primeiro como palavra.
Algumas experiências podem ainda não ser ditas.
Mas talvez já possam encontrar uma forma.
Referências
BRASIL. Lei nº 15.435, de 17 de junho de 2026. Dispõe sobre o exercício da profissão de arteterapeuta. Brasília, DF: Presidência da República, 2026. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2026/lei/l15435.htm. Acesso em: 3 set. 2026.
JUNG, Carl Gustav. Tipos psicológicos. Obras Completas, v. 6. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
MACIEL, Carla; CARNEIRO, Celeste (orgs.). Diálogos criativos entre a Arteterapia e a Psicologia Junguiana. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2012.
OLIVEIRA, Santina Rodrigues. Reflexões sobre a materialidade numa abordagem imagético-apresentativa: narrativa de um percurso teórico e prático à luz da psicologia analítica. Dissertação (Mestrado) — Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006.
SILVEIRA, Nise da. Imagens do inconsciente. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.
SILVEIRA, Nise da. Nise da Silveira senhora das imagens internas: escritos dispersos. Organização de Martha Pires Ferreira. Rio de Janeiro: Edições do BuriS, 2023. E-book.



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